quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Usuário Impaciente

Sou professor de informática há mais de dez anos e trabalho com web cerca de quatro anos, isto me permite escrever o que você irá ler nas próximas linhas.
Quando trabalhava com pesquisa via web há cinco anos atrás, tinha a meu dispor uma coleção de mais ou menos seis buscadores e, por mais complicado que fosse o assunto, encontrava a minha resposta em até dois dias. Atualmente temos quase que um monopólio da gigante Google que a cada mês compra uma nova empresa e lança uma constelação de softwares e recursos novos para os produtos já difundidos no mercado. A empresa Google e todo o seu Grid se tornaram peças fundamentais para as mais diversas áreas de atuação comercial e no âmbito da educação, isto é uma verdade incontestável, e, mesmo que o mais “do contra” diga que isto não é bem assim, sabemos que se a rede Google “sair do ar” o globo capitalista entrará em colapso imediatamente.
Aqui não se trata de um ponto de vista consumista capitalista radical, mas sim, da realidade de todo o sistema privilegiado que se utiliza da internet como motor de funcionamento. Sabemos que jamais se poderá negar que o mundo não é totalmente globalizado, que a internet está presente em todos os lugares, porém, a força comercial, política, cultural e educacional que desenha o mundo moderno está felizmente ou infelizmente calçada nas bases digitais da internet e web.
Atualmente o Google Grid sufoca os outros serviços similares e todos os buscadores concorrentes, seja comprando ou disponibilizando recursos muito atraentes e de incrível versatilidade, além de, ser totalmente gratuito e exigir apenas que o computador ou aparelho possua acesso à rede mundial. Este monopólio está tornando o serviço de busca “inchado” e extremamente irritante, pois, você pode ficar pesquisando durante dias até encontrar uma pista do que deseja. O aumento de publicações sem controle e das “neuroses” ditas modernas, acabam por acelerar serviços novos que ainda não possuem controle sobre si próprios, um exemplo disto é o famoso Orkut e suas “infinitas” comunidades que servem apenas como rótulo gerador de status pessoal. O grande número de fóruns, blogs, portais e web sites pessoais cresceu absurdamente e seu conteúdo é cada vez mais questionável no que diz respeito à fonte original. Esta grande “feira” de informação mistura certo e errado em proporções alarmantes, fazendo com que uma simples busca por uma questão se transforme em uma “caçada” de semanas.
Uma busca no Google não pode mais se resumir ao primeiro link encontrado e nem à primeira página que traz como padrão uma lista de dez endereços. Em um teste feito com minhas turmas no curso de internet em abril de 2006, levamos cerca de uma hora e meia pesquisando quinze sites para encontrar a extensão oficial da muralha de China. A mesma pesquisa feita no ano passado (maio de 2007) para encontrarmos a mesma resposta, tivemos que pesquisar em cinqüenta e dois sites. O número de informações incoerentes e de sites que se contradiziam foi de aproximadamente 42%, levando este professor e seus alunos à beira da loucura. Neste caso a expressão “tem que ter saco” foi levada a sério. Os problemas ainda se agravam quando o usuário não tem a mínima noção do sistema de chave de busca pelo qual o buscador é programado para atender, aumentando em até 80% o número de resultados considerados fora do raio de interesse. Esta nova mentalidade pelo prático e rápido está tornando a sociedade jovem uma massa não pensante e totalmente artificial, como se os seus cérebros fossem buscadores web.
Ao observar clientes de Lan house, percebi graves problemas no momento da busca e isto torna o resultado “sujo” o que leva o usuário a ficar irritado e não completando o seu objetivo. Esta situação possibilitou uma nova área no mercado que se encarrega de fazer buscas em troca de uma certa quantia, uma espécie de achados e perdidos para informações. Este novo tipo de serviço se destina a pessoas que necessitam de informação 100% confiável, porém, não possuem tempo ou “saco” para encontrar o que procuram. Ouvimos freqüentemente a expressão procura no Google, faz Google que tu achas e uma lista de outras diversas frases como incentivo e “luz” no fim do túnel para os desesperados por encontrar a resposta para a pergunta que o tortura. Estes problemas na busca estão associados a uma falta de cultura e informação básica, sendo a grande maioria erros de ortografia e falta de informação mínima do que se busca. Buscas por nomes de doenças, plantas, carros importados, softwares, autores, são muitas vezes infelizes por terem suas chaves de busca digitadas de forma errada. Na maioria das tentativas o próprio Google facilita dando ao usuário um alerta e ainda por cima oferecendo uma opção do que provavelmente ele queria dizer, mas, caso isto não venha a acontecer, muitos desistem e dão por encerrada a busca tendo como conclusão a não existência de uma resposta.
Se uma informação desejada não estiver listada no resultado do Google, significa que nossa pergunta não tem resposta?
Respondo esta pergunta com outras perguntas:
- Será que digitei corretamente a minha chave de busca?
- Minha chave de busca está dentro do contexto da minha dúvida?
- Qual é o tipo da informação que desejo?
A moda de ser frenético por causa da velocidade do avanço da tecnologia impregnou a sociedade jovem de tal forma que tudo está sendo desenvolvido nestes moldes. As próprias leis de construção estrutural dos web sites dizem que um usuário deve conseguir localizar visualmente o que deseja em até quinze segundos e o seu alvo deve estar ao seu alcance em no máximo três cliques do mouse. Este condição torna os usuários seres bitolados, extremamente exigentes e ao mesmo tempo, seres modernos drasticamente limitados ao que podem ver na área do seu monitor. Esta teoria hoje muito bem já disseminada entre todos nós, prega a extinção do físico (jornal, revista, livro) em prol de uma biblioteca digital única universal, onde o que não é listado não é verdadeiro ou não existe.
Esta impaciência ao acessar buscadores e sites seria uma conseqüência do avanço rápido da tecnologia relacionada à internet?
Porque as fontes físicas estão se tornando apenas referência de trabalhos universitários?
Pensando neste problema a Wikipédia que inicialmente era uma fonte pequena de pesquisa e hoje é gigantesca, passou a adotar novas regras. Estas regras exigem que toda contribuição seja seguida de uma fonte/referência, caso contrário, o artigo é colocado em dúvida e pode ser votado e retirado da enciclopédia. Ao lado do Orkut e do MSN a Wikipédia se tornou um dos “lugares” mais freqüentados por aqueles que buscam respostas. Com a idéia de Wiki (Construa a partir de contribuições), vários projetos nasceram dentro das diversas áreas do conhecimento. Este é um dos motivos do enorme crescimento dos Fóruns e dos Blogs, onde a informações estão melhor organizadas, assim, facilitando a busca. Uma vez que um tipo de informação esteja concentrada em um só local/página a busca se torna menos penosa e mais prática. Os blogs também estão a um passo de sofrer uma mudança, pois o grande número de postagens, obriga a existência de inúmeras divisões, páginas e, portanto, um sistema melhor organizado e motores de busca internos mais poderosos.
A impaciência dos usuários atuais se forma pelo fato de existirem muitas respostas para muitas perguntas, porém, todas em um único lugar. As deficiências nos motores de busca, organizações deficientes de informações nos web sites, o grande número de falsas respostas na web, tudo associado a uma certa preguiça crônica gerada no seio da nova geração devido a forma como o sistema nos entrega estas informações, provocam o "caos" na exploração pelo 100% confiável. Tudo que não está ao alcance dos olhos do usuário (área do monitor) não é importante ou simplesmente não existe. A busca não automática se tornou sinônimo de antiquado e desnecessário. Os livros estão sendo substituídos por mp3 ou pdfs e cada vez mais as pessoas não conseguem pegar uma caneta ou lápis para escrever algo, cada vez mais as pessoas não interpretam as coisas como devem ser. As bancas de revistas e as bibliotecas estão cheias de pessoas menos atingidas pela revolução digital, as pessoas “abençoadas” pela tecnologia digital não possuem paciência ou tempo para se deslocarem até um destes locais, então fazem do Portal Terra ou da Globo.com sua janela de hiperinformação.
Se o Google não acha a culpa é de quem?
Se o Google não acha algo, não é importante ou não existe?
Se uma informação não está na Home ou piscando diante dos meus olhos eu não devo procurar um pouco mais?
Os sites com “toneladas” de informações devem concentrar tudo em uma única página para atrair os interessados?
Somos doentes por velocidade e praticidade ou estamos nos tornando preguiçosos ao ponto de esperar que todas as nossas dúvidas caiam direto em nossas mãos?
Diversas vezes auxiliei alunos em buscas e muitos deles ficaram com vergonha ao perceber que suas respostas estavam mais abaixo ou mais acima dentro de uma página de um web site ou blog. Em alguns casos a falta de atenção permitiu que um link não fosse detectado e ali estava tudo que precisavam.
Alunos com dificuldade em encontrar informações sobre um continente com um Atlas dentro da pasta, parece absurdo não é?
Aqui não estou dizendo que a partir de agora devemos abandonar a internet, afirmar isto provaria que sou um morador de outro planeta. O que gostaria de deixar claro neste momento é que o Google, buscadores e web sites em geral não são as únicas fontes do planeta.
O que procuro pode estar ao meu lado naquele livro atirado sobre a mesa, ali mesmo, do lado do monitor. Será que aquela revista na sala não tem algo, já que ele fala sobre ciência? Temos que saber aproveitar melhor a internet, porém, para isto temos que ter uma base mais sólida, algo que ainda está nas fontes físicas, ou vocês acham que todas as informações que circulam pela rede mundial nasceram dentro dela?
Acredito que parte da impaciência dos novos usuários está mais relacionada à preguiça de antes procurar em meios físicos para depois optar pela rede.
Certo!
Quem sabe vamos à rede primeiro, mas, se não ficar muito fácil, vamos tentar um livro, uma revista e assim melhorar meu conhecimento sobre o assunto. Entendendo melhor podemos extrair mais da Internet e contribuir caso realmente o que descobrimos ainda se encontra nela. Conversar pessoalmente e dizer o que pensamos não machuca, discutir com outras pessoas nossas concepções nos ajuda a refletir sobre o que sabemos realmente sobre algo. Por favor, somos seres humanos e apesar da artificialização do mundo, ainda somos seres sociais!

Os Filtros do Indivíduo

Vivemos em uma época conturbada, violenta, frenética, onde, a todo o momento cada um de nós é bombardeado por toneladas de informações, informações estas, que nos atingem através das mais variadas formas utilizando todos os cinco sentidos humanos. Esta grande quantidade de informação, a princípio, aparentemente benéfica, está tornando a sociedade um conjunto de “engrenagens” que giram para todos os lados possíveis sem uma sincronia. A falta desta sincronia desestabiliza o conjunto, fazendo com que o conhecimento não possa ser gerado na sua totalidade, permitindo, desta forma, a criação de fracos “pilares” para as próximas gerações. Todas estas “torrentes” informativas que nos alcançam são na sua grande maioria dispensáveis por trazerem conteúdos não relacionados corretamente com nosso interesse, por trazerem tópicos falsos, meias verdades ou experiências vividas pelo próprio autor que publicou o material e que não se aplicam ao usuário. Isto significa que, cerca de noventa por cento da informação jogada sobre o ser humano interessa ao nosso próximo ou a nós mesmos em outra situação e não supre desta forma, a necessidade do momento.
Tentar absorver toda informação que nos atinge é uma verdadeira loucura, um turbilhão de cores, de formas, de texturas, de sons, de odores e ideologias é disparado sobre as sociedades, tornando-as "cegas" ou confusas. Tentar dar um passo baseado neste ou naquele conceito pode parecer algo comum e quase que automático, porém, acredite, você não faz isto sem uma base já estabelecida há muito tempo. Onde você costuma tomar café fora de casa? Em qual loja você faz suas compras? Porque você usa esta marca de roupa? Perguntas simples, mas, carregadas de informações que a muito tempo estão com as pessoas, a ponto de, permitirem que as mesmas formem uma base sólida para a geração de um conceito.
Segundo o Dicionário Aurélio: Filtro - [Do b.-lat. filtru, ‘feltro’, pelo fr. filtre.] Substantivo masculino. 1. Qualquer peça de material poroso (como papel, cerâmica, etc.) ou com pequenos orifícios, através da qual se faz passar líquido, ou gás, para que sejam retiradas partículas sólidas que neste estejam dispersas.
Como havia dito antes, tentar absorver tudo ou absorver informações desnecessárias nos tornam “peças” fora da sincronia do conjunto. Nos dias de hoje, precisamos desenvolver habilidades seletivas de grande magnitude, ou seja, filtros de informações. Filtrar apenas o que realmente nos interessa em um dado momento ou a longo prazo, irá permitir que um grande conjunto de dados sejam armazenados para uma posterior construção de conhecimento. A falta do uso deste filtro pessoal transforma as pessoas em grandes sistemas que apenas “copiam e colam” fragmentos de forma a reproduzir a amostra coletada. Assim, nada fica, as idéias são apenas passadas de um lado para outro, o senso crítico não se forma e o conhecimento não é construído.
A velocidade com que a tecnologia da informação está avançando nos dá milhares de novas janelas comunicativas, ao passo que, nossa mente consegue assimilar apenas parte disto. As vias de informação são muitas e não param de crescer, porém, cada vez menos se percebe conhecimento circular por estas vias. Devido a este acelerado desenvolvimento tecnológico das redes, as pessoas elegem núcleos virtuais como fonte absoluta de toda informação que necessitam. Não estou afirmando que o uso do Google ou da Wikipédia não são válidos, no mundo físico, confiar em um único autor ou em uma única revista, são atitudes que também não permitem cem por cento de segurança.
Coletar, absorver, filtrar e armazenar, esta é a tarefa que temos que praticar de forma eficaz, caso contrário, a população do mundo poderá se tornar um povo zumbi, regido pela primeira ordem que lhe for dirigida. Além disto, a loucura e um aumento nos erros pessoais tendem a crescer devido a uma aplicação infeliz de informação. Informação gera ação e a conseqüência desta ação vai gerar uma nova informação que pode ser totalmente equivocada, formando um círculo de problemas intermináveis.
Quantos e-mails você tem?
Porque seu documento não está armazenado em uma estrutura on-line?
Quantos cartões de crédito você tem?
Porque o seu filho foi mal em matemática?

Um Ensino Diferente

Grande parte das escolas ainda se baseia em sistemas pedagógicos calçados em teorias behavioristas "mergulhadas" em suas normas e estatutos com rígidas regras no que diz respeito a disciplina e relação entre professor e aluno. As práticas decisivas, ou seja, as avaliações mesmo a cargo dos professores, sofrem pressões mínimas que exigem o sistema de nota como o principal, deixando assim, muito a desejar. Desde a organização das salas baseadas em modelos antigos de que datam as bases da epistemologia, cito Kant e visões como a fenomenologia, os horários, a chamada e a disposição obrigatória de vários elementos das aulas são e devem ser behavioristas por imposição da instituição.
A interação com alunos do ensino fundamental e médio é muito mecânica e está baseada principalmente nas teorias behavioristas e certos conteúdos com "pitadas" de Geltalt. O nível cultural dos alunos está muito fraco devido o pouco valor dado a sua natureza e à grande pressão do mercado. Este mesmo mercado ilude as pessoas que não possuem a mínima noção do conceito mundo e sociedade, fazendo com que se lancem em cursos, empregos e ações que em nada tem haver com seus dons e suas habilidades mínimas na maioria das vezes. Para nós professores, não há um conceito definido de "burrice", pois, pessoas de fraco desempenho em uma área podem ter um fantástico desempenho em outra. Porém, não posso negar que existem alunos que não possuem um bom desempenho geral e para estes alunos um sistema de ensino à curto prazo e altíssima velocidade como os oferecidos pelo mercado atual, não permite uma ação estratégica construtivista. Por opção, todos os cursos básicos são fundamentados dentro do sistema do quadro-copia, ou seja, da repetição e decoreba, tornando o aluno um robô. Dentro do prazo do curso este sistema se apresenta perfeito, o problema é que estes alunos não são críticos e não conseguem "ver" nada além do que passamos, dando uma impressão de que a área estudada é apenas o que se discute em sala de aula, aliás, discutir é algo que os professores fazem "sozinhos", pois, um grande grupo de alunos das escolas públicas apenas reproduzem o que está nos livros e o que é dito em aula. Eles não são capazes de absorver mais do que é mostrado em aula, pois, sua capacidade de busca, abstração e conseqüentemente de subjetividade é muito baixa devido à forma como o conteúdo e dado. A visão de mundo destes alunos fica restrita à faixa de informações que recebem do curso.
Os alunos das universidades recebem um tratamento misto, que utiliza teorias behavioristas, getálticas e construtivistas. A relação com estes alunos, na sua maioria maduros e com extrema ânsia de entrar no mercado de trabalho permite abordagens mais "selvagens", podendo ser abolida uma parte do "adestramento" via repetição e sistema de bônus ou penalidades. Porém, muitos deles carregam seqüelas do ensino médio, puramente behaviorista e não conseguem enxergar em métodos gestálticos e construtivistas uma opção de um ensino de qualidade. Muitos deles não são capazes de avançar apenas com tópicos guias e leitura complementar para uma formação mais individual de um conteúdo, ou seja, uma formação crítica. Vários deles ainda estão presos às aulas puramente expositivas extensivas com acompanhamento lado a lado, exercícios permanentes e provas que se utilizem apenas do "visto" em aula exatamente com as mesmas palavras e formatos de conceitos. Ao abandoná-los para que se utilizem das guias dadas para buscarem mais para completar as lacunas deixadas, simplesmente se "perdem" e ficam dando "voltas" sem conseguir ver o que realmente pedimos e queremos que interpretem. Teorias de ensino construtivista podem em muitas vezes desencadear problemas crônicos de aversão ao professor e a disciplina cursada. Além disto, práticas gestálticas são confundidas como ensino para pessoas com deficiência mental ou como uma forma de "matar aula" em benefício de um professor "vagabundo". As leituras complementares tão comuns na universidade são vistas por alguns grupos de alunos como métodos de "refresco" e prova inscontestável da falta de conhecimento do professor, que, ao se ver incapaz de ministrar satisfatoriamente seu curso "entope" os alunos com material extra para evitar uma aula direta.
Apesar disto, as aulas não se baseiam unicamente em métodos behavioristas, mas na sua grande parte no construtivismo mesclado com a gestalt. Mesmo não percebendo, grande parte dos alunos são "bombardeados" por signos básicos que acabam por levá-los a um nível de conhecimento pelo visual. Um dos grandes problemas atuais é a visão de mundo de cada grupo social dentro de sua comunidade, tornando os alunos "universos próprios" que devem ser explorados pelo professor. Aqui me refiro a detectar problemas pessoais ligados a família ou ao cotidiano e a partir disto traçar uma estratégia de abordagem relacionada a esta ou aquela metodologia. O desafio fica na prática radical de não se conseguir utilizar uma metodologia generalista concomitante com uma grande expressão fenomenológica encontrada atualmente, onde apenas o que se vê e se registra tem validade, onde a imagem vale mais do que pesquisa. Devido a isto, estratégias de ensino com grande quantidade de elementos visuais aliados aos métodos construtivistas são adicionados aos métodos tradicionais sem que os alunos percebam a psicologia por trás disto.
Procuro dentro da metodologia de ensino que utilizo, usar conceitos que tangenciam sempre o mundo atual e social. Tento mostrar que tudo que se estuda depende do homem como ser pensante que percebe as coisas à sua forma devido a uma grande bagagem de vida, onde somam-se cultura, política e etc. Porém, diversos elementos são percebidos da mesma forma por serem muitas vezes detentores de um significado universal. Para isto aplico teorias da geografia cidadã de Milton Santos, teorias epistemológicas pós-modernas, gestalt + construtivista e com coordenação behaviorista. Como foi dito antes, é impossível usar esta ou aquela teoria, porém com um novo conhecimento trazido por estudos de Freud, Jung, e história da epistemologia, vários mecanismos antes apenas presenciados, agora podem de uma forma mais feliz, porém ainda muito artificial serem compreendidos de uma maneira mais natural e até com uma visão mais otimista de solução.
A resposta dos alunos é variada e vai de risadas até ódio completo. As risadas se dão devido a uma identificação dentro das conversas que temos e ódio por aqueles que acham a teoria das aulas algo inútil e com uma perda irreparável de tempo. Sabemos que pessoas que não sabem quem são, se deixam levar mais facilmente por pressões verticais do capitalismo que tráz signos chamativos que moldam o caráter e cultivam na cultura uma máscara tênue que se torna densa ao longo dos anos, afastando o indivíduo da sua realidade. Cabe ao professor tentar mostrar ao aluno o caminho para que ele possa por si só trilhar o próprio caminho e construir suas expectativas originais sem se deixar levar pelas forças comerciais. Isto não significa negar um mundo real onde estamos mergulhados, mas sim compreendê-lo para tirar dele o melhor possível sem entrar "na caverna obscura" da ignorância. Para isto nada melhor que usar os próprios símbolos do cotidiano para apontar uma melhor escolha, ou, ao menos, expôr uma opinião e fazê-los criticá-la para saber até onde possuem uma opinião calçada sobre firmes bases. Resumidamente, várias teorias são utilizadas, porém nas relações fora da sala de aula, teorias gestálticas são muito utilizadas, até porque, informalmente elas são melhores aplicadas pelo "enfraquecimento" das regras behavioristas impostas pela instituição dentro da sala de aula. Nota-se o uso de clausura, experiências passadas e noção de conjunto dentro dos discursos das rodas de papo.

Nossa Cool List

Os tempos são outros dizem nossos pais, na sua grande maioria, analfabetos do mundo digital e "wébico", cegos em um mundo que se desenvolve e se modifica rápído demais para que eles consigam assimililar todas as variáveis formadoras desta nova realidade que nos é apresentada. Mas será que os filhos do futuro conseguem enxergar todas estas variáveis? Será que alguma vez você já parou para se perguntar qual são estas variáveis? Será que elas existem?
Por nascer um pouco antes desta grande revolução da web e consequente explosão de tecnologia física (celulares, câmeras digitais, filmadoras digitais, pendrives, mp3, mp4, mp5, entre outros) posso ver algumas destas variáveis, já que elas se formaram praticamente na minha frente. Este artigo não tem a intensão de abordar todas as possíveis variáveis, até porque, elas são quase que diferenciadas para cada indivíduo e infinitas, aliás, cada um as nomeia de forma diferente também. Muitas vezes o "monte de tolices" que seu "coroa" fala, são leituras precisas destas variáveis que os nascidos dentro das mesmas não são capazes de captar e por isso classificam os "alertas" como bobagens de pais muito protetores ou alarmistas.
Vou falar então de uma destas variáveis, esta que eu chamei de Orkut Natural dos Jovens, um sistema batizado de Cool List Humana. Nossos pais dizem que nossos amigos, parceiros, namorados(as) são muitas vezes tão artificiais como bichos de pelúcia sobre uma cama de menina. Aliás, os bichos de pelúcia estão perdendo lugar para celulares, mp3 players, computadores e as festas. Não pensem que meu foco é somente a classe média, pois, nota-se uma mudança radical no comportamento do jovem pobre também, quando toda a sua inocência, comodidade e "sedentarismo", são substituidos por pierces, cigarros, roupas da moda tribal escolhida (tribo aqui é encarada como um estilo de vida e modo de se vestir) e ações um pouco avançadas para as idades e realidades dos praticantes. Muitas relações estão baseadas na troca de interesses e pelo jogo de status social ao invés de um "recheio" mais interessante como amizade e amor. Amizades que possuem "ligas" de mensagens do MSN e duração de um clique no excluir do Orkut após se ler um Scrap recebido. A seleção de amigos e companhias, não está mais calçada no conhecimento lento e profundo sobre os mesmos. O Orkut Natural, o sistema ADD dos seres humanos que se dizem modernos e adaptados ao ritmo frenético e "pirante" do novo cotidiano classifica as pessoas por seu conjunto de "artefatos representativos" e não pelo real conteúdo: caráter humano. Uma boa e vistosa roupa, um bonito carro, um celular de última moda, uma grande casa, um grupo de amizade específica, um jeito específico de falar, podem gerar uma imagem que é vista e encarada como um avatar para ser analisado. A partir desta construção visual baseada nestes dados coletados, se decide adicionar o indivíduo à Cool List ou não. Uma visão distorcida provocada pela geração incompleta deste avatar de análise pode afastar qualquer possibilidade deste ser de entrar na lista. Muitas vezes isto ocorre já no primeiro contato, uma má impressão pode condenar alguém para sempre, isto pode se prolongar para um grupo e vetar a entrada desta pessoa definitivamente. Os grupos podem trocar Cool Lists e gerar redes gigantes e excludentes. Uma Cool List é formada por um sistema que se divide em cinco partes: leitor de avatar, classificador de visual, comparador de status, registrador de conceito e adicionador em banco. Quando a pessoa encontra ou visualiza o alvo, o leitor de avatar é acionado. Tudo é observado, roupas, cabelo, eletrônicos, cor dos olhos, forma que fala entre outras coisas. Para a grande maioria a primeira impressão é a que fica e muitas vezes ela é criada simplesmente por um choque ideológico. Montado o avatar a partir de todo visual, o classificador visual compara este avatar gerado com outros avatares armazenados ou com o avatar ideal armazenado na memória de grande permanência do cérebro. A partir disto, uma classificação de status (comparador de status) é feita para saber onde inserir este avatar dentro do banco já que ele foi aceito pelo sistema de classificação. Quando um avatar é classificado como satisfatório, ele pode ser inserido como atraente, amigão, laranja, amante e assim por diante. Aprovado o indivíduo, um conceito sobre o mesmo deve ser criado para que se armazene sua figura no banco de dados (registrador de conceito e acionador em banco). O curioso é que isto se processa em segundos ou no máximo em minutos. Uma pessoa pode ser odiada somente por ter dito que o "o som" da festa está "fraco" ou por ter um celular mais avançado.
As relações são frágeis justamente por se basearem nesta Cool List, ou seja, as raízes são montadas a partir de avatares construídos rapidamente por adornos que se classificam como interessantes, mas são classificações que tem uma validade curta e não seriam suficientes para se solidificar uma amizade ou uma descoberta do amor. Vídeos e fotos tomam conta dos momentos, chats e torpedos de celular substituem muitos encontros. Será que os pais estão errados? A variável tempo e caráter devem ser deixadas de lado? As relações podem ser perfeitas se baseando nos Orkuts Humanos?
As redes de "amizade" crescem a cada dia, no virtual tudo é possivel e todos se conhecem. Porém você pode ser surpreendido ao não ser reconhecido pela sua amigona ou amigão da festa passada quando sentar ao seu lado daqui a uma semana na sala de cinema. Podemos confiar nos avatares ilusórios criados rapidamente por nossa mente? Amizades antigas, com duração de oito anos, podem ser substituídas por meros avatares de cinco minutos. Muitos respondem que sim, e você o que acha?